Abertura Mundialito

MUNDIALITO. A COPA QUE A FIFA ESCONDEU

No dia 10 de janeiro de 2017, próxima terça-feira, serão completados exatos 36 anos da final do Mundialito. Final do quê?

A Copa de Oro ou Mundialito, como ficou mais conhecida na América do Sul, foi uma competição de futebol entre seleções realizada pela FIFA no Uruguai no período de 30 de dezembro de 1980 a 10 de janeiro de 1981.

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Ilustração Futbox: Identidade visual Mundialito.

Pergunta

Se pesquisarmos no site da FIFA “Copa de Oro 1980″ ou “Mundialito 1980″ não encontraremos nenhuma informação. Nada. Se alterarmos a data para 1981 o resultado também será “no results found.” Por quê?

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Mundialito / Copa de Oro: “No results found”

Antes de responder essa pergunta torna-se necessário conhecer a história da competição que celebrou os 50 anos das Copas do Mundo de Futebol.

Origens

A primeira edição de uma Copa do Mundo aconteceu em 1930 no Uruguai quando o país sede sagrou-se campeão vencendo a Argentina por 4×2 na final. Depois tivemos mais duas edições em 1934 e 1938, ambas vencidas pela Itália. Um ano depois eclodiu a II Guerra Mundial (1939-45) e a competição foi interrompida retornando apenas em 1950, com sede no Brasil, uma vez que a europa encontrava-se devastada. A partir daí, a cada quatro anos, uma nova edição de Copa do Mundo é realizada.

Curiosidade

A Copa do Mundo de 1950 foi a única edição em que não existiu um jogo final e sim, um quadrangular final entre Brasil, Espanha, Suécia e Uruguai para determinar o campeão. Na última rodada do quadrangular a seleção brasileira, que jogava pelo empate, foi derrotada de virada pelos uruguaios por 2×1 em pleno Maracanã. O famoso “Maracanazo” celebrado pelos uruguaios até hoje.

Placar 1950

Quadrangular final 1950: placar

Inclusive, esse foi o último jogo do Brasil no Maracanã em Copas do Mundo. Em 2014 a organização do Mundial previu apenas o jogo final da seleção canarinho no estádio. Soberba para não falar ingenuidade. Os 7×1 impediram o Brasil de espantar o Maracanazo que continua firme e forte, obrigado.

De volta ao Mundialito

Para celebrar o sucesso das Copas do Mundo e os 50 anos da primeira edição, o então presidente da FIFA João Havelange, junto com seus comandados, criou em 1980 a Copa de Oro, ou se preferirem, Mundialito.

A competição reuniu todos os campeões mundiais de 1930 a 1978: Uruguai (1930, 1950), Itália (1934, 1938), Alemanha Ocidental (1954, 1974), Brasil (1958, 1962 e 1970), Argentina (1978) e Holanda (vice campeã em 1974 e 1978) que entrou no lugar da Inglaterra, campeã em 1966 e como de costume, não quis participar da competição. Há quem diga que foi um protesto contra a ditadura no Uruguai.

Ilistração Futbox: escudos 1980

Ilistração Futbox: escudos 1980

Regulamento

O Mundialito era formado por dois grupos com tres seleções cada. Todas jogavam entre si dentro dos grupos, em jogo único, e a campeã de cada grupo disputava a final, também em uma única partida. O Grupo 1 era composto por Holanda, Itália e Uruguai. O Grupo 2 por Alemanha Ocidental, Argentina e Brasil. Veja a ficha de todos os jogos aqui.

Souvenirs Mundialito

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Baralho: Compania General de Fósforos Montevideana

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Selo e bottom Mundialito

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Selos “Uruguay Campeón”

Transmissão dos jogos

Todos os jogos foram realizados no estádio Centenário em Montevidéu com cobertura para toda América do Sul e Europa. No velho continente as partidas foram transmitidas pela rede de TV RAI da Itália, numa manobra de um jovem empreendedor da midia, Silvio Berlusconi, envolvendo o satélite Channel 5 que faria a divulgação das imagens. Foi o início da relação Berlusconi-RAI. A competição foi um sucesso incrível de audiência na Europa.


Galeria de fotos Mundialito

Brasil 1980

Seleção brasileira

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Alemanha Ocidental vs Argentina

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Itália vs Holanda

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Rivalidade entre Brasil e Argentina

Final: gol de Waldemar Victorino

Final: gol de Waldemar Victorino
5 Uruguai

Rodolfo Rodríguez ergue a Copa de Oro

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Uruguai campeão

A final

No dia 10 de janeiro de 1981 no estádio Centenário lotado, aliás como em todas as demais partidas da competição, o Uruguai venceu o Brasil. Novamente um dramático 2×1 como na Copa de 1950. Gols de Barrios e Victorino para a Celeste e Sócrates, de pênalti, para o Brasil. Era o início do fim da ditadura militar no Uruguai.

Início do fim da ditadura?

Sim. Para entender esse processo precisamos retornar à pergunta inicial: por que diabos a FIFA escondeu o Mundialito de todos os seus registros oficiais?

Antes de responder tudo isso vamos conhecer um pouco do momento histórico vivido pelo país Uruguai nesse período.

Na Política

O Uruguai é o campeão de quase tudo relacionado à qualidade de vida hoje em dia na América do Sul. Mas nem sempre foi assim.

Em 27 de junho de 1973 através de um pronunciamento no radio e na TV o presidente do Uruguai, Juan María Bordaberry, como o apoio das forças armadas, fechou o Senado e a Câmara dos Deputados. Era o início do golpe civil-militar liderado por Aparicio Méndez, advogado, com o propósito de reformar a constituição. Fez parte da “Operação Condor” que atuou também nos golpes ocorridos na Argentina, Brasil e Chile durante as décadas de 1970 e 1980. A Operação, em parceria com a CIA, tinha o objetivo de coordenar a repressão a opositores das ditaduras nos países da América do Sul.

Voltando ao Uruguai, foi um periodo de muita repressão e medo no país como mostram os relatos a seguir extraídos do documentário “Memórias do Chumbo – O Futebol nos Tempos do Condor” do jornalista Lúcio de Castro:

“A tortura não era para obter informações importantes para a segurança do país como afirmava o regime militar, mas sim para semear o medo … A tortura era legitimada pelo regime e alcançava qualquer cidadão, não só os considerados subversivos pela ditadura. As pessoas pensavam: posso ser a vítima de amanhã.” Eduardo Galeano – escritor.

“A maioria das pessoas tinha um familiar preso na época.” Lilian Celiberti – ex-exilada no Brasil.

“Os militares, convictos e orgulhosos do seu poder, convocaram um plebiscito entre o SIM e o NÃO para legitimar o regime militar no poder, nascido do golpe de 1973.” Sebastián Bednarik – Cineasta.

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Plebiscito: Não e Sim

O plebiscito citado acima por Bednarick foi realizado em novembro de 1980, um mês antes do Mundialito. O povo uruguaio iria votar SIM ou NÃO para a continuação/ legitimação do governo militar pós golpe de 1973. Para surpresa absoluta dos militares (surpresa?) o NÃO ganhou e explicitou a revolta da população contra o regime imposto.

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Plebiscito: vitória do Não

No Futebol

A poderosa seleção uruguaia vivia em 1980 um momento incômodo, pois seus principais rivais a ultrapassavam em importância devido aos craques que produziam: Pelé, Didi, Garrincha, Zico, Sócrates, Falcão, Kempes, Ardiles, Passarella, Maradona e aos títulos que conquistavam: Tricampeonato mundial do Brasil (Copas de 1958, 1962 e 1970) e a Copa vencida pela Argentina em 1978.

Já se passavam 30 anos desde a conquista do Mundial de 1950 e o Mundialito era a ocasião perfeita para o Uruguai recuperar sua hegemonia no continente sul-americano.

Internamente, influenciado também pelo momento histórico-político que vivia, o futebol do Uruguai produziu um ilustre campeão nacional em 1976: O Defensor SC. Pequeno clube da capital Montevidéu que conquistara pela primeira vez o título uruguaio no ano da inauguração do profissionalismo do futebol no país. O time era dirigido pelo professor, de fato, José Ricardo De León. “Um homem de esquerda” como afirmou o historiador Geraldo Caetano no documentário citado anteriormente.

De León mudou a cultura do futebol uruguaio. Seu time marcava os adversários pressionando a saída de bola ao invés de recuar e montar uma defesa sólida, explorando os contra-ataques, como era praticado o futebol no Uruguai daquela época.

O clube tinha um posicionamento revolucionário dentro e fora de campo. Quando sagrou-se campeão em 1976 deu a volta olímpica ao contrário, pela esquerda. Esse ato foi muito emblemático na ocasião, somado ao fato da “volta olímpica” ter sido uma invenção uruguaia em 1924 quando a seleção conquistou a medalha de ouro no futebol na Olimpíada de Paris. Origem, inclusive, da expressão “Celeste Olímpica”.

Outro acontecimento inusitado envolvendo “La Violeta”, como o clube também é conhecido, foi quando um dos seus principais jogadores, Pedro Graffigna, teve seu passaporte confiscado no aeroporto de Montevidéu, impedindo-o de viajar para a Argentina. O Defensor iria enfrentar os poderosos Boca e River pela Libertadores de 1977. Graffigna era considerado um jogador subversivo e não pôde deixar o país.

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Graffigna, segundo agachado da direita para à esquerda

A resposta

O cenário politico-esportivo vivido no Uruguai às vésperas do Mundialito era efervescente e revolucionário. Dentro e fora de campo. Alguns trechos do documentário de Lúcio de Castro sobre essa situação:

“Os militares infiltravam-se nos clubes de futebol dos bairros e do interior e vetavam qualquer pessoa de esquerda que desejasse se candidatar a um cargo nesses clubes. Também comandavam a seleção uruguaia e definiam os resultados das eleições nos clubes da primeira divisão do país.” Geraldo Caetano – Historiador, ex-jogador de futebol.

“O regime militar queria que o Mundialito transmitisse para o mundo o êxito da ditadura.” Eduardo Galeano – escritor.

“O Mundialito foi onde, pela primeira vez, o povo uruguaio teve coragem de gritar contra a ditadura militar: Vai acabar, vai acabar a ditadura militar!” Eduardo Galeano – escritor.

“Hugo de León (jogador do uruguai no Mundialito) não ganhou o carro que os militares nos prometeram porque tirou a camisa da seleção e mostrou a do Grêmio, que estava por baixo. Ele tinha acabado de ser vendido para o clube brasileiro. Depois os militares disseram que nenhum jogador que saísse do país ganharia um carro, como desculpa para o episódio.” Fernando Álvez – ex-jogador da seleção uruguaia.

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Hugo De León com a camisa do Grêmio

Analisando todo esse cenário podemos sugerir algumas respostas para a nossa pergunta do dia: por que a FIFA escondeu o Mundialito de todos os seus registros oficiais?

A resposta mais relevante talvez seja esta: não era interessante para a FIFA ser relacionada a uma competição que foi um dos pilares para a derrocada de um regime militar. Vincular futebol e política dessa maneira afetaria os negócios da entidade, pois colocaria a FIFA, vejam vocês, numa posição política subversiva e contraditória.

Subversiva porque uma entidade que gerasse instabilidade política num país não teria a boa vontade de governos, empresas e investidores para patrocinarem seus eventos. E contraditória porque ela, ao mesmo tempo, apoiara um governo militar – já que realizara o Mundialito num país com ditadura – e organizara um evento que contribuíra para a queda desse mesmo governo. Uma dicotomia.

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João Havelange. Eterno presidente da FIFA

Talvez por isso e por outros motivos que serão levados para a tumba por João Havelange, é que uma competição tão emblemática, de tamanha importância histórica – foi realizada durante um regime militar e funcionou como combustível para sua queda – e que fora concebida e organizada pela própria FIFA não tenha nenhum registro oficial nos canais de informação e divulgação da entidade.

Para saber mais sobre o Mundialito sugiro dois documentários de excelência jornalística e cinematográfica. Nenhum deles produzido pela FIFA, claro.

 

• MUNDIALITO, de Sebastián Bednarik e Andrés Varela. Uma raridade. Comprei o DVD em Montevidéu na viagem que fiz ao Uruguai há dois anos. Trailler:

 

• MEMÓRIAS DO CHUMBO – O FUTEBOL NOS TEMPOS DO CONDOR: URUGUAI, de Lúcio de Castro. Série de quatro documentários que abordam a relação do futebol com a ditadura na Argentina, Uruguai, Chile e Brasil:

 

• CONVERSA COM JH, de Ernesto Rodrigues. Entrevista com João Havelange. Documentário sobre o processo, e por que não dizer, façanha dos envolvidos, para escrever a biografia autorizada do eterno presidente da FIFA. Imperdível:

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Fontes:

• Projeto Futbox: pesquisa e acervo (ilustrações)
• Getty Imagens: banco de imagens (fotografias)
• Mundalito: documentário, Sebastián Bednarik e Andrés Varela
• Memórias de Chumbo: documentário, Lúcio de Castro
• Conversa com JH: documentário, Ernesto Rodrigues
• Livro 100 Años de Gloria, do jornal El Pais
• Blogs: Storie di Calcio, Calcio Romantico, IlSudEst
• RSSSF: banco de dados (Mundialito)
• Wikipédia: Mundialito

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Adriano Ávila

A prova inquestionável que existe vida inteligente fora da Terra é que eles nunca tentaram contato com a gente.

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