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O último exorcismo

Tudo começou em 1977. Atlético e São Paulo decidiam o Campeonato Brasileiro. Um regulamento esdrúxulo fez com que o Galo não tivesse vantagem nenhuma na final, mesmo tendo terminado o certame com 10 pontos de frente sobre o Tricolor Paulista. A única “vantagem” era decidir em casa. La em cima, os deuses do futebol tomavam uma cerveja e jogavam poker, quando um deles profetizou:

“Aquele que triunfar nessa peleja será um dos maiores vencedores do futebol brasileiro. E aquele que fracassar, amargará um jejum quase infindável”.

Uma disputa de pênaltis selou o destino. Foi sofrido, muito sofrido. O arqueiro alvinegro ainda buscou dois chutes rivais. Mas três bolas ao espaço decretaram a profecia. A imagem de um time saindo abraçado ficou na retina de cada atleticano.

Os deuses do futebol são cruéis, sádicos. Não bastasse a temida profecia, arrumaram um jeito dela ser bem sofrida. O Galo sempre chegou perto, batia na porta, mas ela não abria. Algumas vezes por incompetência mesmo, mas em outras, tinha um dedo do inimaginável. Em 80, um Rei contundido e expulso, quase cala o castelo inimigo. Em 81, um senhor de preto estragou o que seria um jogo histórico, que acabou histórico por outros motivos. 85, 86, 87, 90, 91, 94, 97, 99, 2001. Toc, toc. Quem bate? É o Galo. Não vai entrar. Em 2005, o rebaixamento. O calvário não parecia ter fim.

Desde então era só figuração de novela. Mal aparecia e ainda corria riscos. Até que veio 2012. Sim, começou em 2012 com um gol de cabeça de fora da área. Alguém lá em cima começava a sorrir. Talvez um dos deuses estivesse de bom humor. A campanha foi invejável. O caldeirão do Horto fervia e derrotar o Galo em BH se tornou uma obsessão para os rivais. Nenhum ainda conseguiu. Mas os deuses do futebol gostam de pregar peças e com uma pontuação que seria suficiente para erguer a taça nos três anos anteriores não foi suficiente justa na vez alvinegra. Mais uma vez foi quase.

Mas a essa altura a chave já tinha virado. Veio 2013. Ah, 2013. 13. Galo. Os deuses do futebol começaram a se reunir pra ver esse time jogar, regado a cerveja e muita picanha. Primeira fase de encher os olhos. Primeiro lugar geral. Os deuses se divertiam. Veio o São Paulo, aquele mesmo clube de 77. Duas lambadas pra não deixar dúvidas quem era o favorito. O Galo começava a exorcizar seus demônios. Veio um tal de Tijuana. Favas contadas depois do empate heroico no México. Não foi assim, não mesmo. Um pênalti contra aos 47 do segundo tempo pôs a tona todo o passado de frustrações alvinegras. Por que isso tudo de novo? A via crucis parecia não ter fim. Parecia. Eu disse que os deuses assistiam os jogos do Galo juntos. Todos eles se incorporaram na perna esquerda do arqueiro alvinegro e colocaram aquela bola em órbita. Como duvidar desse time agora?

Na semifinais contra o campeão argentino, um jogo marcado pela superação e o brado retumbante de EU ACREDITO, ecoou nos tímpanos dos jogadores e uma vitória nas temidas penalidades colocou o time na final. Finalíssima contra um adversário poderoso, três conquistas e sete finais. E agora?

Mais uma desvantagem fora. E dessa vez o Horto não seria porto seguro. O novo Mineirão era o palco. Mais um demônio? Nada de gols na primeira metade. 45 minutos restantes para, no mínimo, balançar as redes duas vezes. Menos de um minuto e tá no filó. Pressão, chances, desespero. Os deuses estavam gostando tanto daquilo que resolveram dar uma rasteira no atacante adversário quando o gol estava livre para ele. Gol do Galo em seguida. Eu disse que os deuses são cruéis. Prorrogação com um jogador a mais. Agora vai ser mais tranquilo. Não foi. Apito final e decisão na marca da cal. No mesmo palco, no mesmo gol da maldição de 77. O último demônio precisava ser exorcizado. Era o roteiro perfeito. A batida na trave foi carregada de água benta, bíblia e crucifixos. Não havia mais demônio em corpo alvinegro. O último exorcismo liberou o grito de campeão que estava amaldiçoado há muito tempo. O Galo não virou uma página do seu passado. Ele agora escreve um novo livro.

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André Fidusi

Publicitário e jornalista por formação, ilustrador por vocação. Futebol na veia. Quem pede recebe, quem desloca tem preferência. Pegar de pé é dibra. Vamo que vamo!

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