Futebol, de Francisco Rebolo

O DRIBLE É NEGRO

Hoje em dia, passados quase 130 anos da abolição da escravidão, ainda nos deparamos com a existência do racismo. Podemos citar, por exemplo, os inúmeros casos de racismo no futebol — o jornal O Globo listou 10. Aliás, o mesmo futebol que em seus primórdios, durante as primeiras décadas do século XX, impedia o acesso aos negros nos clubes.

01 fotos racismo

Racismo no futebol.

Antes de começar a escrever, preciso dar nome aos bois e reconhecer a autoria dessa hipótese. Renato Nogueira, o autor, é filósofo e pesquisador, seus escritos defendem uma forma de se fazer filosofia baseado na ideia de afroperspectiva, ou seja, que atenta para elementos da herança cultural dos povos africanos no Brasil no pensamento brasileiro.

É, nesse sentido, que Renato Nogueira defende a ideia do drible, para ele, “o drible é o exercício de encontrar canais para a visibilidade do pensamento filosófico africano, assim como da filosofia afrodiaspórica”. Para quem se interessar no assunto, segue o link com o texto “O Conceito de Drible e o Drible do Conceito: analogias entre a história do negro no futebol brasileiro e do epistemicídio na filosofia“. De qualquer forma, sua pesquisa é interessante pois não só reconhece o drible como sendo de origem negra, como também reconhece o drible como forma de pensamento africano, com suas próprias especificidades.

Pelé e Garrincha, expoentes máximos do drible brasileiro:

Pelé vs Mazurkiewicz: 1970

Pelé vs Mazurkiewicz: 1970

Bicicleta de Pelé.

Bicicleta de Pelé.

Garrincha vs México: 1962

Garrincha vs México: 1962
Garrincha no Maracanã

Garrincha no Maracanã

O nigeriano Okocha, um dos mais habilidosos jogadores africanos de todos os tempos, e Ronaldo Fenômeno – Copa da França, semifinal contra a Holanda:

Austin Okocha vs Oliver Kahn

Austin Okocha vs Oliver Kahn

Ronaldo vs Holanda: 1998

Ronaldo vs Holanda: 1998

O argumento central por trás da ideia de que o drible foi invenção negra tem relação com a própria história do futebol brasileiro. Segundo Renato, além das inúmeras restrições impostas aos jogadores negros, havia ainda a prática racista de juízes que sempre tendiam para o lado dos atletas brancos. O drible foi uma forma desses jogadores negros se adaptarem à situação dos jogos, uma vez que deveriam ser rápidos o suficiente para não sofrer faltas — as quais não seriam marcadas pelos juízes. Além disso, as rodas de sambas também foram importantes para a elaboração dos dribles, seja no movimento rápido com os pés, seja no balanço do corpo.

Aliás, isso não é novidade nenhuma para quem acompanha futebol. O drible é negro. Mesmo assim é interessante observar que esses reconhecimentos estão sendo feitos em espaços fora dos campos e dos estádios. Nesse sentido, é importante lutarmos contra os “esquecimentos” dentro do futebol e valorizar os inúmeros jogadores que tiveram de enfrentar todos os obstáculos. Felizmente, encontramos muitos exemplos de sucesso na história do futebol, há o Domingos da Guia, por exemplo, que após o mundial de 1938 foi eleito o zagueiro mais completo do mundo, ou então podemos citar o Pelé, que dispensa apresentações e que é melhor que o Maradona.

Domingos da Guia

Domingos da Guia

• Texto de Guilherme Silva, graduando em História pela Universidade Estadual de Campinas e pesquisador na área de História da África.

• Pintura “O Futebol”, de Francisco Rebolo.

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